22 de Maio de 2013

Recado da Professora
Enviado por Marlene Salgado de Oliveira 30/6/2012 18:39:38

Todos pela educação (2)

Na semana passada, falei aqui sobre o importante movimento Todos pela Educação e sobre as cinco metas pretendidas pela ONG, até 2022, data dos 200 anos da Independência do Brasil. Fiz um breve panorama das preocupações com a educação que, sem dúvida, cresceu em quantidade, mas recuou em qualidade. E falando em qualidade, a primeira coisa que nos vem à mente é o profissional responsável por gerir o ensino – o professor. E é sobre o professor que gostaria de refletir.

Jô Soares disse uma frase que me calou fundo: “O material escolar mais barato que existe na praça é o professor”. É uma frase que, numa primeira leitura, ridiculariza a figura do professor, mas, numa leitura mais vertical, está plena de verdade. Historicamente, o professor foi perdendo o valor e o respeito que lhe era e é devido. Não há profissional que não tenha passado pelas mãos de professores. Que não se tenha construído através dele.

Até por isso, o professor necessita de formação continuada. Mas a problemática da formação dos professores não pode estar separada das condições que abraçam a carreira docente: salários e jornada de trabalho. Mesmo que bem formados – que não é o caso de nossa situação atual – precárias condições de trabalho impedem uma melhor ação dos professores. Estes dois pontos vitais atuam diretamente na valorização do profissional que, não tendo condições tanto de horário, quanto financeira, ficam os professores impedidos de se dedicar a estudos mais profundos, de se aperfeiçoarem constantemente, já que estes são, também, fatores de desestimulo.

Há uma conta que não podemos deixar de fazer. Assim como dois mais dois, matematicamente, resulta em quatro, é preciso, para afiançar uma formação consistente, assegurar condições adequadas de trabalho e fornecer os recursos financeiros que correspondam à ação educativa. E o que acontece? Há uma fala geral, insistentemente reiterada sobre a importância da educação, de seus benefícios e de suas virtudes. No entanto, na hora de investir para que ela realmente aconteça, recua-se. Nega-se a ela o que lhe é devido. Assim, teoria e prática seguem direções opostas. Tira-se do povo a possibilidade de tornar-se uma sociedade de conhecimento, capaz de gerar melhores condições econômicas para o país e de ser composta de cidadãos capazes e conscientes.

Só uma educação a contento poderá resultar em mão de obra qualificada. Mas para tal, o professor também precisa estar qualificado. Precisa ter condições de correr atrás de sua melhor qualificação. Precisa ter tempo e recursos para que isto se realize. Segundo o educador Saviani, “... não se trata de colocar a educação em competição com outras áreas necessitadas, como saúde, segurança, estradas, desemprego, pobreza etc. Ao contrário, sendo eleita eixo do projeto de desenvolvimento nacional, a educação será a via escolhida para atacar de frente todos esses problemas”.

E quem estará à frente para atacar de frente todos esses problemas: o professor, aquele que, se estiver fortemente embasado, será o alicerce sobre o qual se erguerá o alto edifício da educação. Lembro-me das palavras de Dom Pedro II: “Se não fosse imperador, desejaria ser professor. Não conheço missão maior e mais nobre que a de dirigir as inteligências jovens e preparar os homens do futuro”.

“O professor disserta sobre ponto difícil do programa.
Um aluno dorme,
Cansado das canseiras desta vida.
O professor vai sacudi-lo?
Vai repreendê-lo?
Não.
O professor baixa a voz,
Com medo de acordá-lo.”
Carlos Drummond de Andrade

A professora Marlene Salgado de Oliveira é mestre em Educação pela UFF, doutorada em Educação pela UNED (Espanha) e membro de diversas organizações nacionais e internacionais.

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