26 de Maio de 2013
Na semana passada, falei aqui sobre a volta às aulas e sobre a explosão de alegria de que é tomada uma escola quando os seus alunos voltam de férias. Falei de como os prédios escolares se enfeitam de estudantes, trazendo no rosto o sorriso da saudade e as mãos cheias de novidades para doar. Os estudantes são a alma da escola. Mas, junto com eles, voltam os professores. E nós, professores, bem que podemos refletir sobre a nossa principal função nesta nova etapa.
O primeiro dia de qualquer coisa me lembra um filme a que assisti há algum tempo que se chama Como se fosse a primeira vez. A protagonista da história sofre um desastre de carro e a batida afeta o cérebro na parte responsável pela memória recente. Lembra-se de todo o passado, mas cada novo dia de sua vida apaga-se após uma noite de sono. Para sua felicidade, um rapaz apaixona-se por ela. Mas, para que fiquem juntos, ele tem de aprender a conquistá-la todos os dias. Assim, em cada manhã de cada dia, a vida deles começa sempre como se fosse a primeira vez.
Segundo os médicos, a situação da moça era irreversível. Mas o afeto e a criatividade do rapaz conseguem fazer com que a memória afetiva da moça marcasse, mesmo de forma indelével, a sua imagem, já que, a cada dia ele inventava uma nova estratégia para que a sua conquista se efetivasse. Ao falar de memória afetiva, falo de afeto. Falo da atitude que temos com quem nos relacionamos e que move todo ser humano – tenha a idade que tiver - rumo à sua autoestima, à sua segurança, ao seu crescimento, ao seu desejo de aprender.
É fato que uma família coloca seu filho na escola para que esta cumpra com a sua função: a de sistematizar os conhecimentos necessários para o crescimento intelectual do estudante e para ajudá-la a educá-lo. No entanto, Segundo Piaget, o afeto é de grande influência no comportamento e no aprendizado das pessoas, juntamente com o desenvolvimento cognitivo, estando presente nos sentimentos de uma maneira geral: desejos, interesses, tendências, valores e emoções, ou seja, em todos os campos da vida. O mais importante é que o afeto, por estar diretamente ligado à emoção, vai ser um fator determinante sobre a maneira como as pessoas visualizam o mundo e a forma como se comporta nele.
Sempre me fiz uma pergunta: Por que um aluno ama uma determinada disciplina num determinado ano e no ano seguinte passa a detestá-la? A resposta? Porque mudou o professor. Mais importância e mais afeto recebidos do primeiro e indiferença recebida do segundo. E indago: Como você, professor, quer ser lembrado pelo seu aluno? Com aquele gosto de saudade doce? Como aquele único que deixa cheiro e sabor de infância em nossa alma? Como o professor e não como mais um dentre tantos?
Penso, que para isto o desafio é exercitar não só a competência intelectual, mas a afetividade a fim de conquistá-los, diariamente, como se fosse sempre a primeira vez.
A professora Marlene Salgado de Oliveira é mestre em Educação pela UFF, doutorada em Educação pela UNED (Espanha) e membro de diversas organizações nacionais e internacionais.
e-mail: [email protected]
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